Catramonzelada de Abertura




Uma das minhas primeiras Crônicas da Emigração remonta ao ano de 1969 quando eu dei entrada na Escola de Aplicação Militar de Angola. 
Em tempos foi divulgada na ONG "Portugal Club" com o sub-título de "A Minha Ida à Guerra" todavia eu utilizei o tema deste texto num estilo satírico, talvez encoberto por um certo sarcasmo latente pois o serviço militar era obrigatório, e eu sempre fui avesso a fazer algo que não me agrade, mas... tinha que ser.
Posteriormente fiz revisão em algumas palavras e verbetes originais, porém a mais das vezes eu deixei na forma original pois eu entendo que a regra da liberdade ortográfica criativa é não haver regras préviamente establecidas. De outra forma a criação não será livre, nunca!    

Nota de abertura desta crônica; (estilo prosa e poema livre)
...chegados à ocidental praia do Ambrizete,
por caminhos e picadas nunca andados,
feitos a Catana e a Canivete"
...avançámos com o peito a descoberto,
sem camisa, por não haver mosquitos ali perto!...
os "turras" eu não os pude ver,
porque outros maçaricos já lá estavam, etc e tal...
mesmo assim foi honroso combater,
e defender a minha pátria, PORTUGAL!!!!
(direitos de autor reservados, mas nem tanto!)
 - Silvino Potêncio - Ex-Combatente de Angola

Resenha da situação em tempo oportuno: - -- Dia 12 de Janeiro de 1969, cerca das 07:45 hrs da manhã pousei a mala no chão em frente à EAMA (Escola de Aplicação Militar de Angola) na então Nova Lisboa, hoje capital da província do Huambo com o mesmo nome indígena original.
Era dia de recrutamento e após passar o portão principal, seguindo a "bicha" de pirilau (que nada tinha a ver com a "bicha" tupiniquim!...) cheguei no corredor de recepção entre um sujeito de origem indiana de quem guardo na memória apenas a alcunha "Índio", (apesar de termos feito uma grande amizade e termos estado juntos por 6 meses seguidos naquele quartel), e o meu particular amigo Machado, também conhecido na área como o "Matraquilho".
- Este era funcionário publico em Luanda, com um metro e quarenta e cinco de altura foi logo para a frente da bicha!... Era fruto dos erros da SECRECSEL, lá pelas bandas das cercanias do quartel general, onde eu acabei servindo como amanuense por 42 longos meses.
Ali na EAMA existiam várias salas para alistamento e em cada uma delas se fazia uma etapa diferente do alistamento p'ra valer!...


Mas a grande farra era mesmo no corredor!

Aí surgiu então um camarada alto,  com dragões de Alferes Miliciano nos ombros da camisa, e segurava uma prancheta na mão onde anotava tudo, menos o esperado cadastro pessoal para alistamento.
As perguntas do "nosso alferes" eram do tipo; és casado?... não!... tens filhos?... já falei que sou solteiro, como é que tenho filhos?

 - Olha aqui ó pá!... Aqui não dizes nada!... nada além do que te perguntarem, está bem? - Tá bem.... não é "tá bem", é... "sim senhor meu Alferes"!!!

- Tens filhos ou não?
- Sim Senhor, Meu Alferes!!!
- Tu ouviste bem?!...
Como é?... disséste que não tinhas filhos, e agora dizes que sim!?...
-  ... estás-me a gozar ou o quê?...
- Nisto, eu recebi mais uma palmada nas costas, que mais parecia que me tinham atingido com uma "Tremonzela" no cachaço vinda de outro Alferes Miliciano, que por ali passava em surdina, e eu fui parar do outro lado do corredor.
- Olha aqui ó pá!...
- O oficial superior aqui sou eu.
- Esse "gajo" aqui não manda nada, entendes?
De agora em diante nunca mais levantes a voz além da minha e lembra-te;
Na tropa manda quem pode, e obedece quem tem juízo!
No dia seguinte de manhã, cerca das 05:00 hrs, o corneteiro mostrou o toque de alvorada e na correria para os lavabos tropecei de frente com o tal "Alferes Miliciano" numero um. O mesmo que me tinha recebido no dia anterior na entrada do quartel - Nesse momento ele estava sem dragões nos ombros da camisa e mesmo assim eu bati a continência!!!.... Ele saiu disparado em direção da secretaria da caserna, e a rir a bandeiras despregadas. Ele afinal,.... Era apenas um simples soldado raso o qual havia se fantaziado de oficial para receber os novos recrutas daquele 12 de Janeiro de 1969, e eu fiquei ali com cara de parvo sem entender nada!
- Foi a primeira vez que tive também uma grande vontade, e ganas de lhe dar uma grande "Catramonzelada".
- E isto porque o tal Senhor "Alferes Miliciano" do dia anterior era nada mais nada menos que o soldado Amanuense de serviço no dia de recrutamento que havia recebido autorização (de combinação com o Oficial de Dia) para fazer aquelas "palhaçadas" tradicionais do primeiro dia de quartel. Bastante parecidas com as brincadeiras escolares como sejam: o primeiro dia de universidade dos calouros, o primeiro dia de acampamento dos escoteiros, ou de qualquer coisa nova, que nos acontece em sociedade e que muda as nossas vidas para sempre!
- Com base no estilo e inspiração do grande "vate" da poesia em língua portuguesa, os "Lusíadas", eu comecei aqui esta minha "Catramonzelada" de hoje já no meio da crônica. Perguntei onde poderia divulgá-la e de alguma forma a mandei para o portal do PortugalClub. Arranjei uma boleia aqui no artigo infra publicado como resposta ao camarada Sergio Teixeira/Suíça, e assim surgiu esta crônica, por sinal bastante resumida.
-- É que, por falta de tempo e principalmente porque não é do meu feitio meter a foice em seara alheia, eu tenho recebido e guardado com certa saudade estas mensagens do PortugalClub especificamente dirigidas a nós portugueses dos anos 60 (embora achemos que estamos todos ainda com 50!!!).
- Ao ler esta resposta, dizia eu, me lembrei imediatamente desta que foi a minha primeira "Catramonzelada" em tempo de guerra. - Mas antes quero usar um pouco mais do vosso precioso tempo para explicar o nome; "Catramonzelada"!
A palavra é um derivativo do nome próprio "Tremonzela" que é um instrumento agrícola utilizado pelos agricultores portugueses das regiões interiores, como sejam as de Trás-os-Montes, Beiras e Alentejo.
- Todavia o camarada não precisa ser Alentejano, ou Transmontano, para lembrar que nos bons velhos tempos de preparo da terra, (ah!... a "santa terrinha" de todos nós portugueses, não interessa se estamos no espaço físico do Cabo da Roca até ao monte Fujiama lá no Japão!,... todos sofremos por ela de uma forma ou de outra!)  a "Tremonzela" era utilizada com a junta de bois, ou outros animais domésticos para traccionar os arados, as charruas, as grades, aos jugos das juntas presas no pescoço ou nos chifres dos animais. Agricultores ricos ou pobres quase sempre se utilizavam deste instrumento de trabalho. ... e os mais pobres, do chamado reino do "Salazarismo" nem bois tinham naquele tempo!... por isso a utilizavam eles em parceria com um burrico ou dois para atrelar na charrua ou na grade e puxar a "Tremonzela" por cima da terra depois de lavrada e semeada.
- É isso mesmo,... a "Tremonzela" era aquela tora de madeira redonda descascada, geralmente cortada de algum galho de freixo ou castanheiro, com cerca de dois metros de comprimento, e com um gancho numa das pontas e alguns furos na outra ponta para se meter o "chavelho". A Tremonzela era indispensável naquela época ainda não muito distante e que, se usada para agredir algo ou alguém como eu vi algumas vezes, poderia ser muito útil e como tal, eu a escolhi para servir de base ideológica a esta que poderá ser a primeira de muitas crônicas para dar uma boa "Catramonzelada" em qualquer situação ou pessoa que o mereça!
(- Sem querer meter prego nem estopa,... gostei da "Catramonzelada" colocada aqui embaixo e da autoria do amigo Sergio Teixeira. --- Logo seguida da "Catramonzelada" sempre eficiente, séria e honesta do editor do PortugalClub, Sr Casimiro Rodrigues. )

Ainda em seqüência à resposta da mensagem original publicada aqui embaixo, cujo autor comenta a situação em Portugal e nossa participação na guerra de Angola, Moçambique, Guiné,... Eu acrescentei mais alguns pensamentos a esta crônica; e então dizia eu para o meu Alferes instrutor!
- Os sonhos são como as nuvens!.... umas trazem chuva e outras se esvaem com os ventos.
O tal Mapa Cor de Rosa do cone Sul Africano só existe na nossa memória e imaginação!
Ele, o mapa imaginado pelos então governos colonialistas se situava no espaço fisico-geográfico entre os territórios de Angola e Moçambique o qual ficou desmembrado por pressão política sofrida do governo de Sua Majestade o rei da Inglaterra. Porém no meu entender ele acabou mais propriamente quando o Gungunhana pendurou as calças lá no Castelo de Bragança! - Que grande "Catramonzelada" ele apanhou do meu conterrâneo! Aquele !... o Mouzinho de Albuquerque homem!
- Já vi! ... actualmente o "Meu Alferes" só lembra agora do Mourinho, o dos dragões.
- Isso fica para a próxima "Catramonzelada" !...
Até breve, e nunca se diga adeus para sempre!
Silvino Potêncio/Natal-Brasil

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