A Morte de uma ilusão!...


Hoje teve um despiste no IP 3 e o condutor pediu ao Guarda (sem farda) para lhe guardar o saco da droga, etc e tal e coisa. Isto me fez lembrar da minha caçada aos "Gambuzinos" havida por mim logo depois que eu regressei de Angola na condição de "retornado". 

A Morte de uma ilusão!... 

O Poeta Guillaume Victor Émile Augier,  ele nos dizia lá da sua Bela Côte D’Azur;  Sofre-se mais vezes pela morte de uma ilusão do que pela perda de uma realização!
Com base nesse pensamento eu acrescento: Falar é fácil, difícil é realizar! E são estas as palavras que muitas vezes escutamos de quem não consegue realizar algo de seu, ou para o qual tenha disso sido incumbido.
- Escrever é nada mais, nada menos, do que exteriorizar o que nos vai dentro do pensamento, apenas com a diferença de que os pensamentos feitos em palavras, essas leva-as o vento!
Enquanto que os pensamentos escritos eles se perenizam, se divulgam e são aceitos ou recusados dependendo de cada leitor. 
Nós, os Emigrantes do tempo do "assalto à França",  à Alemanha, ao Luxemburgo, e mais tarde aos demais países que nos acolheram depois da crise dos anos "se senta" ( se senta aí,  aonde houver lugar para isso, à espera dos anos "se tenta")  e se tenta arranjar emprego, onde for possível, nós acabámos por nos acostumar com a ideia da redescoberta das nossas tradições seculares; seguir o caminho dos nossos ancestrais caminhos do mar e escutar a voz do poeta porque "navegar é preciso"! 
Restabelecidas que foram as liberdades democráticas no velho "recto ângulo" da europa, lá onde o mar começa e a terra termina sempre em chamas de saudade, sejam elas alimentadas pelo sonho de um dia voltar, ou até mesmo pelos descasos administrativos onde só se previne o que já é,  e está irremediávelmente perdido, nós sofremos a mesma força da impotência no combate à estupidez dos homens que a natureza não perdoa. 
- Sabemos todos que as condições climáticas são novas, são diferentes, são mais inclementes do que nunca, todavia outros países as sofrem de igual forma, e nem por isso são castigados como o nosso velho torrão natal.
- Eu até nem lhe chamaria mais por este nome, ao palmo de terra que lá deixei, mas sim um pequeno e minúsculo pedaço de carvão, depois de tantas vezes que a chama já lhe lambeu as berças.      
- Chegamos ao mês das "vacanças" e com isso trazemos na alma o temor da incerteza! Relatos de acidentes mortais, outros não menos prejudiciais ocupam as "pantallas" dos televisores, os écrans dos monitores e mais sofisticadamente - agora modernamente proliferados e pr'a frentex - são os visores dos telemóveis!
... estáaaaalá!!???
-Alá esteje cuntigo tumbém!
ó pá, ou estou aqui na santa terrinha, pá... 
- tu vistes-me!?... e tu onde estás?
- parece qu'és burro pá!,
-  aatão num estás a olhar p'ro monitor?
- ou!?,... burro ou!?, hein...burro és tu caraaaaago.
-  bem ou estou, estou cá sim!, pá, mas é que... épá, peraíiiii...
Ahhhhtchibum! Catrapum! shrrrrriiimmmm,.... pum, catrapum! e de repente o estálaaaaaaa por aí foi ladeira abaixo, até bater n'ua fraga de bico arrebitado! 
- Ai minha Nossa Senhora!,
Ai mou Jasuis dos Passos,
Ai Nossa Senhora da Assunção lá da aldeia de Vilas Boas... ai, ai, ai!...
- Nisto "xigou" o sô guarda,  que não toca na banda mas veste o modelo GNR.
- Olhou, viu, e em primeiro lugar bateu a continência, enquanto o infractor continuava lá dentro da viatura toda escambalhada!...
Oh que pena, era tão bonito, mesmo comprado na loja "d'occasion"!
- Ai minha Nossa Senhora!,
-  Ai mou Jesus dos Passos, (deixa-me gemer mais um pouquinho a ver se o home esquece a missão de combate do próximo mês lá nos "balcãs".)
- Ai Nossa Senhora da Assunção!,... ajuda-me aqui. 
Oh minha Nossa Senhora do Amparo lá de Mirandela, valei-me aqui que eu nunca tinha tido um acidente, foi a primeira vez, acredite ó sô guarda!
- Tá bem, tá bem... voismecê tem dinheiro consigo?
Aatãon ó sô guarda!,... u qué qu'é  isso home de Dous!?... tou aqui todo cubrado da espinha e voismecê inda me pergunta se tenho dinheiro!?... peis é claro que tenho, mas purquê?!  
- Tá no regulamento!
A "coima" paga à vista e no acto da infracção é mais barata, sabia?!  
Oh minha Nossa Senhora do Amparo!,... aatãon é isso é!?
A estrada está mal construída… é o que éeeee!
- Os "gajos" da Junta meteram a mão no orçamento e surripiaram uns trocados para irem de férias lá nas ilhas "sei... Cheles" e nós aqui é que pagamos essa tal de "coima"!?  
- u qué qu'é  isso home de Dous!? 
Olhe, "voismecê" tenha calma e vá lá mostre-me logo a carteira porque senão eu posso até  "en cu adrá-lo"  (uma forma do verbo "encuadrar" do português arcaico-douroiense) na infracção anterior que é muito mais grave, e ainda fica sem carta, sem email e até sem fax para avisar aos parentes.
- u qué qu'é  isso home de Dous!?  
"voismecê" vinha a falar ao telemóvel e quando olhou de novo p'ra estrada "voismecê" despencou pela ribanceira abaixo mais depressa do que se faz a troca de pneus da "ferrari" com a testa rosa como a sua! Voismecê quer pagar a coima, ou não!?
- "voismecê" tá doido... 
- u qué qu'é  isso home de Dous!?... eu não falei nada no telemóvel.
Eu só peguei nele para tirar uma fotografia a mostrar que eu estava aqui na santa terrinha, pô! 
 Diga-me cá;  "voismecê" já foi emigrante,  sabe cumé qui é home, né!?
- Temos que dizer p'rós amigos por onde "andemos", etc e tal e coisa.
Olhe, "voismecê" tenha calma.
Ou paga estas duas que já estão registradas aqui no meu PC (de bordo) ou quer que eu lhe aplique a "coima" anterior?!
- u qué qu'é  isso home de Dous!? Aatãon qual é a coima anterior?
- "voismecê" tá lembrado da velocidade que vinha antes de se despistar, ou seja antes de se "desestradar" ou melhor dizendo actualmente, antes de se "desitinerar" (entenda-se: aquele que sai do "Itinerário Preferencial")  aqui pola ribanceira abaixo? 
- e a conversa continuou enquanto a gasolina espalhada pela área foi se alastrando. 
Ó sô guarda!, qual a "coima" anterior à anterior?
- Porquê?
- Eu nunca fico a dever nada a ninguém, muito menos ao Estado lastimável em que estamos.
- Aqui nos seus documentos consta que "voismecê" nasceu no dia primeiro de abril de mil novecentos e... olhe!, - eu acho que a sua "coima" anterior ela foi cometida mais ou menos uns nove meses antes desta data! - quer pagar ou não?  
Deixe isso p'ra lá.
 - Afinal nós já estamos mesmo no fundo poço, e acho até que estas chamas em volta de nós dois aqui a conversar elas devem ser alguma coisa parecida com aquilo que se pode chamar de inferno na terra. 
A benção minha Nossa Senhora da Assunção!
 - Pena que não posso te visitar lá na próxima semana... mas p'ro ano eu vou, se Deus quisér. 

        Santuário de Nossa Senhora do Amparo - Mirandela - Portugal 

Um comentário:

  1. Este e muitos outros textos deste meu livro foram escritos de forma coloquial onde se mistura a ficção com a realidade da vida. Muita coisa que parece mas não é!!!

    ResponderExcluir

O tempo é ouro! por isso eu agradeço a todos por dividirem o vosso aqui comigo. Sejam benvindos ao meu Blog da liberdade de brincar com as palavras em Português e outras línguas!

Catramonzeladas Literárias

Nóis fumo ó mercado da Rócas!

   Nóis Fumo Ó Mercado da Rócas! Este é um poema meu em homenagem aos Poetas Cordelistas  Potiguares, em especial dedicatória aos Sau...