Saudades de Luanda...


O meu livro "Cartas Literárias" é uma colectânea de textos recebidos por mim ao longo dos anos em que já me encontro na Emigração que, diga-se de passagem são tantos que quase já lhes perdi a conta.
Os Amigos que me seguem sabem que,  dos quase 11 anos vividos em Angola eu guardo as melhores lembranças porque, como eu costumo alardear: eu não tenho prémios nem loas, das muitas obras que eu já fiz na vida// Porém guardo lembranças das boas, e das más me ficou tão só uma ferida! 
Esta minha tendência para a escrita poética me surge quase sem reflexo ou inspiração contudo, em atenção à minha ética pessoal, quando não sou o autor de tais textos, eu tenho por hábito transcrever na integra as cartas originais e os seus respectivos autores. 
Esta aqui por exemplo, eu já recebi há muito tempo porém só recentemente alguém colocou o nome do autor original Victor Ramalhoso (data vênia) 
Me desculpem os puritanos da lingua mas na criatividade literária eu sigo a minha própria regra e aatãon bamos lá... 


PORRA...TENHO SAUDADES DE LUANDA!


É tão bom recordar! Faz doer, mas sabe bem!
Ai, que saudades do nosso tempo!
Que saudades da nossa "malta"!
Que saudades do nosso "Cine-Colonial" e do filme "Aventureiros na Lua"!
Que saudades do "Sansão e Dalila"!
Que saudades da "Auto-Reparadora", da Igreja de São Paulo e da "Minerva"!
Que saudades do Sr. Brito, da Farmácia S. Paulo, que tratava os eczemas, conhecidas por "flor do Congo"!
Que saudades das sandes de peixe frito do velho "Campino" e daquele seu "boteco" defronte da Farmácia São Paulo!
Ai, que saudades dos doces de ginguba da velha Donana!
Que saudades do Sr. Torrão, que vendia, no seu carrinho de gelados, os "pirolitos" e a "paracuca", do Seixas! Do "Carinhas"! Do palhaço "Pipofe" e do Carlos, da "Casa Lina"!
Ai, que saudades do "Bar Mariazinha” e do Sr. Azevedo...
Ai, que saudades de todas estas saudades!
Saudades de ti, saudades de mim, do tempo e das palavras inocentes que utilizávamos nos nossos diálogos.
- Há palavras do tempo que faz e há palavras do tempo que é... As palavras do tempo que é escondem-se por dentro do tempo que faz e certas palavras do tempo que faz matam a palavra do tempo que é!
-  Lembras-te do Baleizão e das sandes de presunto e daqueles "finos" de cerveja CUCA, tirados à maneira, pelo Tarique?
E dos restaurantes da conduta com o seu inigualável bacalhau assado na brasa com as travessas cheias de azeite e do frango de churrasco e de cabidela com arroz malandro, também eles confeccionados nos restaurantes da conduta?
Lembras-te do Bairro Zangado e do Muceque Mota? Rangel, Maianga, Vila Alice, Vila Clotilde, Samba, Praia do Bispo, Cassequele, Ingombotas, Marçal, Farra do Braguez, Bairro da Lixeira, Sambizanga, Caop... LEMBRAS-TE?
E dos cinemas: "Tropical", "Nacional", "Império", "Miramar", "Restauração", "Cine-Colonial", "Kilumba"...
E do "BÊ-Ó"? Com aquelas suas "baronas" (Bailundas, Madeirenses, Indianas, Cabo-verdianas, "Tugas" de Viseu, da Lourinhã e de outras localidades daqui do "Puto"!).
E da "Cagalhoça"? E da "Maria das Pressas"?
E das "Aleijadinhas" (Irmãs gémeas)? Grandes "trumunos"! Cacuaco, Caxito, Mabubas, Quifangondo, "Marabunta", inicialmente no Kaiser vermelho e mais tarde no seu "Chevrolet” descapotável, também ele vermelho"...
Aiué, "Santo-Rosa"! Aiué, Loja dos "Cambutas"! Aiué, "Casa Branca"! Aiué, "Catonho-Tonho"! Aiué, "Casa Carmona"! Aiué, "Gajajeira"! Aiué, "Casa Sabú"! "Casa Queimada"! "Karibala"! Desportivo de São Paulo! Aiué, "Copacabana"! Aiué, o "REX"! Aiué, "Liceu Salvador Correia"!
Rádio Clube de Angola, com a voz inconfundível do Santos e Sousa: "Uma voz portuguesa em África"! Aiué, "Lusolanda", "Robert-Hudson", "Casa Americana", "Bicker", "Quintas & Irmão", "Armazéns do Minho", Aiué, "Poço da Morte" com Fernando Silva, "jovem audaz artista português, que sobe as paredes lisas, sem feitiço, do Poço da Morte"!
- Subam, meninas, subam! Irão assistir a um espectáculo nunca dantes visto, onde há a perícia, o arrojo, a audácia, o sangue-frio e o desprezo pela vida”!
Depois do espectáculo, a entrevista ao "Bumbo":
 -Então, amigo? O Senhor gostou do espectáculo? Resposta do patrício:
-Quer dizer...gostar, gostar, propriamente não lhê gostei. Maje...não deram o Arrojo, qui diziam qui davam!
São essas recordações, que nos fazem chorar de saudades!
A fragrância da "Katinga", do "Mufete", "Caranguejo de Moçâmedes", garoupa, peixe galo, peixe pungo, corvina, peixe prata, o popular "Cacusso assado”, com feijão de óleo de palma, do "pirão" (caldo com farinha e peixe), indicado para se tomar após uma "ressaca"! "Kimbombo", "Marufo"...?!
E a nossa Ilha! Ilha distante... tépido Sol... amena frescura das tuas ondas tropicais, outras vezes perigosas conhecidas por calema; acalmia, sossego e paz no encanto da embriaguez de um e do outro.
A voz do tempo!
A voz daqueles que já partiram!
A sua voz, suavemente, relança o tempo que é numa estranha melodia que se entranha no íntimo até ao limiar do desejo. AIUÉ, MINGUITO, com a sua concertina!!
Aiué, Velha Guinhas (cega), mas que via mais do que todos nós! TUDO PASSOU... TUDO PASSA...
Um oculto fogo nos ateia a alma. O tempo parece-nos infinito nessa paragem de mágico sabor... e a ilha do Mussulo, para onde íamos transportados pelo “Kapossoka” e pelo “Kitoco”. PORRA... ‘TOU CHEIO DE SAUDADES DE TI, LUANDA!

autor: Victor Ramalhoso 

Muito Obrigado Amigo Victor Ramalhoso! Bem hajas pela belissima carta que nos traz tantas saudades que eu canto em prosa e verso no meu livro de POEMAS DE ANGOLA - Eu, O Pensamento, A Rima... 

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