Uma Ode a Fernando Pessoa!






Fernando António Nogueira Pessoa (Nasceu em Lisboa, 13 de junho de 1888 — Faleceu em Lisboa, 30 de novembro de 1935) foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. 
Numa das minhas efêmeras passagens pelo Bairro Alto eu passei em frente à Brasileira aonde o poeta me convidou (em mente) para sentar, e eu aceitei. Mais tarde eu lhe dediquei este meu poema inspirado pela B.I.C.A. que ele inventou. 

Pois ele costumava dizer para o empregado recomendar ao servir o Café Beba Isto Com Açucar! 

Eu fui conversar com o Poeta em Pessoa!...

Eu fui conversar com o Poeta,
Que me recebeu já sentado.
Pedimos uma "bica curta"
E lá me sentei ao seu lado
... Falámos de tudo um pouco
Ali na Calçada do Chiado!
Foi ele que me convidou
E pelo muito que me escutou...
Saí de lá inspirado a subir ao Bairro Alto.
Com o coração na boca,
Subi bem devagarinho...
Porque os anos já me pesam de mansinho,
Cantei o fado baixinho,
Como ele talvez o tenha feito
Ao gravar esta saudade no peito
De quem ama a poesia,
O sonho de sentir alegria
E o desejo de viver na Lusofonia.
Depois da conversa acabada,
A Alma ficou mais lavada,
E eu desci pela calçada...
A pensar com os meus botões,
O Mestre não disse nada...
Só me mostrou reflexões
Das cores do nosso sentir!...
Do tempo que ainda há-de vir
Do passado que já se foi,
Do presente que agora doi...
Do Futuro que já nos corroi!
As forças deste térreo viver
Em espírito imaginário...
Deste meu entardecer.

(in: "POESIAS SOLTAS " De: Silvino Potêncio)


Na comemoração dos 120 anos do nascimento do Poeta, eu recebi aqui uma carta que guardo até sempre, que me foi enviada por um outro Poeta que eu muito estimei em vida, o Meu Saudoso Amigo Vasco dos Santos, Escritor, Poeta, Advogado, Editor, Crítico Literário nascido em Alcafozes no Concelho da Idanha-a-Nova - Beira Baixa, mas que passou a maior parte da sua vida no Brasil.

Sobre Pessoa ele escrevia assim:

Ode aos 120 anos do Poeta

O Poeta Fernando

Guardo um pesar profundo, por esse homem ser considerado, o maior poeta do mundo.
Imagino-o, de menino, demarcando pegadas, do seu destino.
Ora, Fernando, desde quando algum português deixou a Pátria chorando, não esperando voltar outra vez?
Tivestes sorte. Outros te antecederam, partiram mas não voltaram e o sonho e a aventura com que sonharam, terminou na morte e na rasa sepultura.
Quando se perdeu o sol, o rumo, o horizonte, não sobrou quem conte
o que ali aconteceu!
Deves ter feito a mesma leitura do Velho do Restelo, estarrecido e escondido nas areias do Tejo ao ler na Escritura o terrível  libelo do sonho e da aventura!
Sei que isso é coisa do passado, de Netuno e seu feitiço, amarrado no fundo do mar  e do gigante Adamastor no oceano profundo, envergonhado com o poder ousado dos descobridores do mundo.
E o poeta-menino, já tracejava o seu destino, adernando à costa africana,  “ passando além da Taprobana”.

Ó mar aberto do sonho desperto! Lisboa tão longe, Portugal tão perto!
Encerrando um ciclo do seu destino, começou voltando pelo mesmo caminho.
 - Até imagino! Lisboa desperta, clara, aberta, habituada à partida e à chegada de tanta gente perdida, de tanta gente embarcada pra sempre, pra toda a vida, por causa de tudo, por causa de nada!

Quantos regressos de sucessos de insucessos mal sucedidos?
- Pra tantos,  tudo... para quantos, nada.
Mas, Lisboa, segura e certa de que o poeta carregava um baú  que sinalizava a Mensagem que trazia pra revelar, deixou a porta aberta e mandou-o entrar.
Mal desce no cais, escancara-se o Terreiro do Paço e depara-se com o cavaleiro de aço do rei que já o foi e não é mais, embora sustente no braço as rédeas do seu cavalo de aço dum rei que só é rei por ser rei do Terreiro do Paço. 
Segue em frente a olhar toda a gente que vê e examina e, porque sente ser discriminado, deixa cavalo e cavaleiro de lado e entretém-se a olhar a cidade Pombalina que à sua frente descortina.
Entra no café, senta-se à mesa, saca do papel e da caneta, escreve a granel, a tinta preta, mas, escreve...
Toma café  e bagaceira, na Brasileira  do Chiado e, sentado na mesma cadeira ou ao mesmo balcão encostado, bebe.
Poeta verdadeiro exala cheiro de poesia e se entrega, divide, se parte e reparte e se acrescenta e o grupo torna-se maior e se aumenta e, quando a poesia acontece, sempre a alma sedenta  de poesia, ao seu redor, aparece!...
Foi eleito o primeiro cavaleiro da távola redonda da mesa do café.
À semelhança, dos cavaleiros... sob a liderança de José de Arimateia, que encucaram na cabeça a idéia de que aquele vaso guardava gotas do sangue de Cristo,  o mesmo ele fazia.
 E não era nada disto. O poeta tinha fé na poesia que fazia.
Na bagaceira que bebia na Brasileira, no Martinho onde o poema fluía.
E sempre lá ia, repartido,  dividido em cada nome diferente que escolhia, olhando-se a si mesmo, vendo-se em toda a gente, quando escrevia,  sorvendo o café, intercalando aguardente.
E como toda a bobagem  é pouca, teve a idéia louca e publicou “ “Mensagem”, livro único e derradeiro que a vida lhe deu de tanto que escreveu na sua longa viagem!
Só. Absolutamente só.
Como o outro, o primeiro, cantado por gerações, “ entre rimas de trovões” ( refiro-me a Camões), morreu pobre como Jô.
Nem escravo teve para acompanha-lo ao cemitério dos Prazeres!
Que ironia do destino! parece sarcasmo divino o nome emprestado a esse campo santo!
A sua trajetória acabou na cama merencória dum hospital.
Não faz mal. Afinal, tem estrela no céu  que já morreu mas a sua vida não se encerra e continua iluminando a terra.
Completando a ignomínia, um editor tagarela caiu na esparrela de abrir a boca,  falando: -´Fernando, que pena, não ser teu contemporâneo! eu te descobriria e editaria.
Como se os editores, em todos os tempos e eras, não fossem coveiros de tantos sonhos e quimeras!
Mas, o poeta, que o escutou, deixou a porta do túmulo aberta,  se levantou e, sarcástico, numa risada cadavérica, lembrando Soares dos Passos, abriu os olhos e soltou os braços, trocou a sentença apensa à sua mensagem:
-Nada vale a pena se a alma é pequena. E pediu licença pra voltar ao túmulo.
Fico imaginando  nosso último encontro, caminhando pelas ruas da Baixa Pombalina, num friorento inverno, corpo franzino, transido de frio.
-Onde vais, Fernando? -Vou pro rio.
O Tejo anda vazio, não há caravelas,  nem navio, e vou continuando a poesia,  a mensagem na mesma linguagem que inventei um dia e ainda não terminei.
E, com a alma serena, tudo o que previu, redisse: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.
Adeus! - disse e se despediu…

S.Paulo, 27 de Junho- 2008
Vasco dos Santos

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